Na noite do último sábado, em Teresópolis (RJ), uma jovem foi agredida barbaramente ao sair de um pub, simplesmente por ousar fazer o que deveria ser básico: rejeitar o assédio de um homem e defender uma amiga do toque indesejado. O caso, noticiado recentemente pela imprensa local e investigado pela Polícia Civil com auxílio de imagens de monitoramento, não é exceção, infelizmente. Basta nos sentarmos entre amigas para ouvirmos relatos pessoais – cada uma com sua marca de assédio, medo ou violência. Que incômodo atravessa o corpo feminino ao longo de uma vida?
E a cada história, sentimos nos ombros o peso de viver em um país onde o direito de dizer “não” custa caro. Onde nossos salários são menores, nossa existência é julgada e nossos corpos, frequentemente, tratados como territórios públicos. Não há nada de hiperbolicamente dramático nisso: dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2023, a cada 4 minutos uma mulher foi vítima de agressão no Brasil.
Apesar disso, é fundamental mantermos alguma leveza – talvez, até esperança – no nosso olhar. Porque, sim, resistimos. E rimos entre amigas, nos recuperamos, seguimos em frente, mesmo tropeçando em estruturas sustentadas por quem se protege no privilégio de gênero.
Não se trata apenas das feridas físicas. A Lei Maria da Penha, uma das mais abrangentes do mundo, define como violência não só a pancada, mas também o abuso psicológico, sexual, patrimonial e moral. E, no entanto, ainda precisam ser lembradas e reforçadas – como se fôssemos, todas, eternas alunas de uma escola que insiste em ensinar a culpa às vítimas e a impunidade aos agressores.
O problema é estrutural, e cresce onde o machismo encontra fôlego – seja na redemocratização amputada pelo patriarcado ou nos tempos recentes, em que vozes conservadoras e até fascistas tentam calar mulheres que desafiam o modelo “submisso”. Já parou para pensar que, para determinadas pessoas que se dizem preocupadas com a “família tradicional”, até o corpo de uma menina violentada deveria ser propriedade do Estado? Assustador – mas real, como provam casos recentes onde até mesmo criança se vê cerceada em seus direitos reprodutivos.
Não é pesadelo, é cotidiano. Mas que sejamos subversivas, irreverentes, resilientes – e, principalmente, não caladas. Que encontremos na coletividade – seja em bares, festas, filas de banco ou mesas de trabalho – abrigo e força para reivindicar respeito e igualdade. O enfrentamento é duro, mas o futuro pode (e deve) ser menos hostil. Que possamos sorrir um pouco mais, com liberdade, e sem medo de dizer “não”.
Fontes:
O Diário de Teresópolis – notícia sobre o caso
G1 RJ – “Jovem é agredida após assédio em Teresópolis”
Fórum Brasileiro de Segurança Pública – Anuário 2024
Lei Maria da Penha – Lei 11.340/2006
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