Um quadro alarmante de poluição tomou conta da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim, localizada na Baía de Guanabara, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Essa área, com quase 15 mil hectares e a primeira criada no Brasil para proteger manguezais há 40 anos, está coberta por uma camada espessa de resíduos — principalmente garrafas plásticas — que se acumulam no manguezal e ameaçam seu delicado ecossistema.
A situação foi revelada em flagrante aéreo no final de julho, mostrando extensas áreas tomadas por lixo plástico acumulado em meio aos mangues, um dos ambientes naturais mais produtivos e essenciais para a biodiversidade marinha. Apesar de ser um espaço protegido, a responsabilidade pela gestão da área virou um impasse entre o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Enquanto o Inea afirma que o local está inserido na APA Guapimirim, competência federal sob o comando do ICMBio, este último nega que a área faça parte de sua jurisdição, embora tenha anunciado a realização de uma inspeção para avaliar os danos e planejar ações de recuperação.
Especialistas alertam que o lixo chega aos mangues por rios, canais, correntes marítimas e pelo vento. Júlio Wasserman, professor da Universidade Federal Fluminense, explica que o acúmulo de plástico dificulta a troca de gases entre o sedimento e a atmosfera, prejudicando organismos fundamentais como os caranguejos-uçá, que habitam esses solos e desempenham papel-chave na manutenção do equilíbrio do manguezal. “Essa camada de lixo dificulta a respiração do solo e compromete toda a fauna local”, afirma.
A poluição vai além do impacto físico. Estudos indicam que peixes, aves e outros animais que vivem nos manguezais ingerem partículas plásticas, que entram na cadeia alimentar e ameaçam a saúde da biodiversidade e até dos seres humanos. Plásticos podem causar desde obstrução do trato digestivo até intoxicação, comprometendo a sobrevivência das espécies.
O problema reflete um desafio estrutural antigo. De acordo com o mestre em engenharia ambiental Emanuel Alencar, a falha na coleta eficaz de resíduos pelas prefeituras e o consumo excessivo de plástico agravam a situação. “O volume de lixo, incluindo hospitalar, pneus e móveis descartados de maneira irregular, é gigantesco”, observa o biólogo Mário Moscatelli, com décadas dedicados à recuperação dos manguezais.
Para conter e recuperar os manguezais da Baía de Guanabara são necessárias ações integradas: fiscalização rigorosa, remoção sistemática de resíduos, restauração ambiental com plantio da vegetação nativa, controle das fontes de poluição e engajamento das comunidades locais. O ICMBio atua em parceria com organizações civis na coleta de lixo, mas reconhece que o acesso à área é dificultado pelas condições geográficas e climáticas.
Além da proteção ambiental, essas medidas são urgentes para preservar os serviços ecossistêmicos vitais que os manguezais oferecem, como o sequestro de carbono, proteção contra erosão costeira e suporte à biodiversidade marinha, essencial para a pesca e o equilíbrio ambiental da região.
A poluição por plástico nos manguezais da Baía de Guanabara revela a necessidade urgente de repensar hábitos de consumo, fortalecer políticas públicas de gestão de resíduos e conservar esses ambientes únicos que sustentam milhares de formas de vida.
